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Garotinho pediu tiro no peito e ameaçou quebrar a cara de Cabral


No final de 2016 a imprensa e as redes sociais mostraram em vídeo o espetáculo feito pelo ex-governador Anthony Garotinho, sua mulher, Rosinha, e sua filha, Clarissa, quando ele foi transferido de um hospital no centro do Rio de Janeiro para o Complexo Penitenciário de Gericinó, em Bangu.

As agressões físicas e verbais de Garotinho contra policiais e a resistência à transferência promovida por ele, Rosinha e Clarissa resultaram na abertura de um inquérito contra os três no Supremo Tribunal Federal por desacato e resistência.

Além dos pontapés e xingamentos contra policiais, é possível saber, com base nos depoimentos do inquérito, que muitas outras situações insólitas aconteceram naquela noite de novembro de 2016.

Um dos policiais federais que esteve na ambulância que levou Garotinho do centro do Rio ao presídio relatou que, fora da visão das câmeras, o ex-governador se acalmou e passou a agir como se nada tivesse acontecido. Porém…

No veículo, conversou com ele sobre vários temas:

– Garotinho falou que, se encontrasse Sérgio Cabral no presídio, iria quebrar a cara dele.
– Por várias vezes pediu para que o policial federal lhe desse um tiro no peito — e que, se isso não fosse feito, ele iria se suicidar na prisão.
– Disse que no passado havia implantado um SISTEMA DE DUTOS que passavam internamente por todas as celas do Complexo Penitenciário de Bangu. Com isso, bastava se pressionar um botão e gás sonífero era liberado nas celas, fazendo com que os presos dormissem. Dessa forma, inclusive, ele teria conseguido acabar com rebeliões no presídio.
– Xingou, sempre que pôde, os policiais e o juiz responsável por sua prisão, dizendo que os agentes eram pobres e mortos de fome.
– Falou que só estava sendo preso porque havia produzido um dossiê de 2.000 páginas contra figurões da política, e iria levá-lo ao Congresso.
– Disse ainda que sua prisão teria como finalidade a “queima de arquivo” devido à produção desse dossiê.

Reprodução

Para além do papo na ambulância, o inquérito também mostra como Rosinha e Clarissa teriam tentado impedir a transferência de Garotinho.

Segundo relatos dos policiais, as duas se negavam a entregar roupas do ex-governador e disseram que, se quisessem levá-lo, ele sairia nu.
Depois de muita conversa, teriam concordado em pelo menos colocar uma cueca em Garotinho, o que foi feito pela filha Clarissa.

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Nos depoimentos ainda é dito que Garotinho violentamente arrancou um acesso venoso (agulha) que estava em seu braço — e sangue começou a esguichar num dos policiais e no lençol que cobria o ex-governador.
Há ainda relatos de uma série de socos e chutes dados por Garotinho contra policiais federais, seguidos de insultos como:

“Vocês são uns merdas! É por isso que estão todos pobres!”

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Em meio à confusão, teve até pedido de Rosinha para dar um último abraço em Garotinho — gesto que durou de uma hora a uma hora e meia.
Por fim, também é relatado que Clarissa e Rosinha pressionaram o médico do local para que não desse alta ao ex-governador.

OUTRO LADO

O advogado de Garotinho, Carlos Azeredo, disse que não teve acesso ao inquérito — porém considerou que o inquérito pode ser positivo para a defesa, uma vez que, por meio dele, pretende provar abusos contra o ex-governador.
Entre os abusos, o advogado diz que Garotinho foi levado para o presídio sem receber alta hospitalar e que sua filha e mulher simplesmente tentaram impedir uma ação que poderia resultar até mesmo em sua morte.
A assessoria de Clarissa Garotinho enviou a seguinte nota:
“Esclareço que não houve desacato. Me posicionei como filha, em uma situação em que o meu pai estava internado em uma UTI coronariana, com uma angioplastia marcada para colocar um stent no coração, sem autorização para alta médica, e ainda assim estava sendo removido de maneira autoritária para a UPA de Gericinó, que não tinha qualquer infraestrutura para atendimento a pacientes cardíacos. O direito à vida é um direito inalienável, e o meu posicionamento foi em defesa da vida e da saúde do meu pai.
Os fatos foram os seguintes:
Quando a polícia chegou ao hospital para fazer a remoção determinada pelo juiz de Campos, inimigo político do meu pai, não havia autorização médica para fazer a remoção. O médico responsável, Dr. Marcelo Jardim, havia nos dito que ele não poderia ser removido para uma UPA. A junta médica nos relatou que estavam preocupados porque ele seria retirado de uma UTI Coronariana para ir para uma UPA onde sequer havia um cardiologista.
Diante do impasse, o Dr. Jardim foi levado por policiais federais para atender um telefonema do juiz de Campos e, quando voltou, disse, à mim e à minha mãe, que se ele não autorizasse a transferência ele seria preso. Ele foi ameaçado e confirmou isso em depoimento em juízo.
Se houve alguma atitude arbitrária de alguém foi do juiz de Campos.
Não houve qualquer resistência ou desacato. O que houve foi minha atuação como filha, tentando evitar essa arbitrariedade, ligando inclusive para a Comissão de Direitos Humanos e buscando informações sobre as condições da UPA de Gericinó para entender em que condições ele seria recebido lá. Não precisa ser médico para saber que uma unidade de Pronto Atendimento não tem UTI, não tem estrutura para um paciente coronariano que vai colocar um stent.
Quando meu pai chegou na UPA ele foi recebido por um infectologista e um pediatra. Não havia sequer um cardiologista de plantão. Ele passou a madrugada inteira sem os remédios que ele precisava tomar para o coração. No dia seguinte o Tribunal Superior Eleitoral concedeu uma liminar que determinou que ele pudesse ser novamente removido para um hospital com estrutura para a condição dele.
Ressalto que todo o processo de atendimento à ordem de prisão foi anterior aos acontecimentos no hospital e obedeceu a todos os tramites sem qualquer intercorrencia. Durante esse processo, meu pai passou mal, foi atendido por um médico do SAMU, comprovado por laudos do Souza Aguiar.
Um adendo: ressalvo que esta semana estava pautada a votação no Conselho Nacional de Justiça um procedimento que nós abrimos contra esse juiz de Campos contra as medidas que ele adotou. Em breve essa matéria voltará para ser votada no CNJ. Então essa acusação de desacato me parece uma movimentação política para tirar o foco do julgamento da decisão do CNJ que deve sair a qualquer momento.”

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